domingo, 22 de abril de 2012

A mente mente


Penso demais
e o raciocínio é presa fácil
na teia das velhas emoções
e os erros sucedem-se.
A mente mente
e eu também,
até que me apanhe
e deixe de confundir.


Quero...


Quero mais do que parecer
tudo o que me faça saltar a cerca;
experimentando, retesando os limites…
Viver humano,
para ser mais eu.
Por muito que me queira afigurar,
sou todos os que em mim havia, por enquanto,
menos este que apareço.

O avesso é bem diferente do direito,
mesmo que se declare como igual.
Quanto mais igual,
desigual.




sábado, 14 de abril de 2012

Olhar


Deixa que te mire
e contemple,
para que te gostes mais
e concebe a minha dádiva,
apenas como uma ponte
à tua emancipação.
Olho-te, não para que me (re)conheças,
mas para que te (re)vejas
e estremeças,
e morra eu aos horizontes
que ali mesmo, naquele lance, se esgotam,
para que apenas me sinta
e sobeje,
e seja.

Ver-me-ei, no que quiseres ser,
basta que me provoques
com um breve olhar,
que se leia.
, 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Coisas

Coisas de homem,
só homens com homens sabem
fazer e sê-las,
ser Homem,
resolvendo a ancestral dualidade do género
em consonância com o Verbo,
o Anima da alma.
De mulher, igualmente;
combatentes de inquietante Animus
que também acossa desde primo tempo.
De Homem,
estão para além do que a natureza induziu
e de todas as leis, que teimam, confinadas,
sejam as da Terra,
sejam as dos céus ditadas pelos da Terra,
que alucinam pela demora
e chegar a Deus.
Quando aqui, há de tudo,
até o inferno se fabrica à mão,
desde a esquina,
até à pretensão,
e também é céu,
e até a pequenez.


domingo, 8 de abril de 2012

Sobre o arame

Se houver em mim alguma porta por abrir
é a vossa, onde estais trancados.
Poderei eu escancarar-me
e crer no amor,
e quanto mais depender do prazer,
mais sofredor serei,
mas jamais capaz de me consumir,
depois do que já em mim lutei,
para além do limite do poial,  
e voltar a fechar.

Sou o que quiserdes
mas nunca mui distante do que ouso ser  
e da  liberdade que me fervilha,
até que me destine ao caos dos improvisos
a possua dons à satisfação sobre o arame.  

sábado, 7 de abril de 2012

(In)Felicidade

Vou até onde me demando
e o tempo me souber
até desmistificar a (in)felicidade
e sentir hoje como oiro,
ser borboleta no âmago de uma flor,
e a insatisfação como degrau
e a imaginação ventre do criador.

Tão ávidos são os meus sonhos
e falazes os meus desejos,
para um só caminho que preciso,
com a Inteligência que me rege,
sempre pronta a redimir-me.  

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pessach

Não posso pactuar com o mal,
mesmo que tenha a chancela de um qualquer deus!
Serei sempre também a Igreja,
mas nunca pela religião.
Não é a fé que questiono,
mas as leis dos homens,
que não servem o Homem,
nem a evolução do firmamento
e os que se fingem de cegos.

Que se celebre sim, Pessach;
a passagem do anjo da morte,
o que nos liberte dos primogénitos
das casas da traição e crueldade,
que escravizam o povo da vida;
todos os filhos de Deus!

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Clarinete e suas Vozes


O clarinetista Ruben Marques Jacinto e o pianista Luís Bastos Machado apresentam um recital com uma temática dedicada à voz. O clarinete, instrumento cujo som desde sempre foi de...scrito como tendo características muito próximas da expressão vocal, apresenta-se aqui com um programa contrastante, mostrando não só a sua própria voz, mas fundindo-se também com outros géneros de música vocal, como a Ópera e o Fado. Com a participação especial da fadista Ana Roque e do Grupo Coral do Montijo/maestro José Balegas, este é um concerto a não perder, com obras inéditas e homenagem ao nosso recente património imaterial da humanidade, que é o Fado.



Programa

Claude Debussy – Primeira Rapsódia para clarinete e piano (1910)

Jörg Widmann – Cinco Fragmentos para clarinete (em lá e Sib) e piano (1997), estreia nacional

George Gershwin – Somebody Loves Me para clarinete e piano (1924) Arr. Art Marshall

George Gershwin – Summertime para clarinete e piano (1935) Arr. Art Marshall


Intervalo


Gioachino Rossini – Introdução, Tema e Variações para clarinete e orquestra (1819), da Ópera La Donna del Lago.

Pedro F. Sousa – Tejo, meu Fado para voz, clarinete e piano (2011), Poema – João Araújo, estreia absoluta.

Alain Oulman – Fado Português, poema de José Régio (1970), Arr. Rui Ribeiro

Alain Oulman – Maria Lisboa, poema de David Mourão-Ferreira (1970), Arr. Rui Ribeiro

Frederico de Freitas – Rua do Capelão, poema de Júlio Dantas (1931), Arr. José Balegas Gonçalves

Canção tradicional judaica – Choson Kala Mazel Tov, Arr. José Balegas Gonçalves



Intérpretes:

Ruben Marques Jacinto – Clarinete
Luís Bastos Machado – Piano
Ana Roque – voz
Grupo Coral do Montijo/maestro José Balegas Gonçalves



Entrada: EUR 5,00
Reservas: 212327882 / 212327880

sábado, 17 de março de 2012

Além Terra

Muito longe, que queira ir,
dificilmente, sairei daqui.
Ir além Terra,
por enquanto, só viajando,
pelo interior de mim,
à descoberta deste cosmo,
igualmente infinito (ou ainda mais),
mesmo que me iluda
por o que julgo apenas ver,
e a ser só isto
a que tanto se propuseram criar.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Malsão

Hoje, tirei a manhã,
para chorar.
Também é preciso!
Havia tanta coisa em mim
por carpir.

Se me sinto melhor?!
Sim, mais aliviado,
mas continuo malsão!

Ser outro ser...

Se fosse perfeito
jamais conseguiria ajudar
quem julga ser um exemplo,
nem compreenderia os que sofrem
para crescer…
Sou apenas Homem
e sê-lo-ei até ao fim,
mesmo que creia  
ser outro ser,
mais além do que sou.

domingo, 4 de março de 2012

A esperança de um céu

Há momentos em que julgo ser feliz
e altura em que me imagino a precipitar do abismo.

É mui fácil iludir-me
e difícil eu crer,
e sobreviver aos dias de nuvens indistintas ,
que nos sobrecarregam demais
e escondem a consciência
e arrancam a coragem.

Mas haverá sempre uma qualquer estrela,
que habilmente se consegue escapulir
por entre as sombras
e ser a esperança de um céu.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sentidos

O que anseio?...
Não sei!
Pouco ou nada, já me compensa!
No entanto, perduro preso ao hábito
do que me deu alimento,
forçando-me viver em exageros,
até de vez me enfastiar
ou ficar enriquecido de paladares,
sem que me culpe pela concupiscência,
para que me descubra em outros sentidos
e despertem outros, mais evidentes prazeres,
e venham os incentivos apenas do (a)mar.


E é aqui

Não é justo falar de alguém,
nem mesmo sobre mim tão pouco.
Devo apenas divagar.
É-me permitido (re)pensar,
mas sem me repetir
para ter o desejo de me viver.

E é aqui, no sítio mais alto
onde me habito,
que me recolho
e mais longe me sinto de tudo,
na solidão de que necessito,
tatuando as paredes de meu quarto
com a poesia do Amor,
para me ser no que mais sou
e que me goste se merecer.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Poesia

A poesia eleva
os mais profundos sentimentos
da alma
à consciência dos dias
feitos de versos
tecidos com fios de luz.

A poesia
é dos poetas
que de tão vivos
sabem eternizar o canto
e o belo
de todas as palavras
de todos os Eus.

A poesia
não tem razão
tem sabedoria.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Amor

Raro é aquele que não pensa no amor,
mas poucos são os que o conhecem
e sabem assistir.
O desejo intenso do corpo puro,
é traído constantemente pelo temor que frequenta o pensamento
e a coragem é escassa para combater velhos moinhos de vento,
deveria perder-se somente no presente,
sem desassossego de futuro que o culpe...

Não sei se quero ser amante,
ou antes sobrepujar as mágoas de não ter tido abrigo.

O que procuro, para além da sedução,
é o que me compense
e alegre a triste casa,
para que me sinta gente
e me encontre livre
do (des)conforto antes de mim.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Queria despir-me...

Queria despir-me,
ficar todo a nu
e sentir conforto assim, desse jeito,
sem que minha nudez viesse a servir de motivo
à falsa roupagem,
fosse vítima de quem se protege
de cima a baixo, com múltiplas capas,
como se fosse mundo
e de si, a verdade,
e, eterna,
a lucidez.

Tenho o propósito
de, bem ou mal, marcar a mente alheia,
a mexer com atrevimento,
causar-lhe estranheza,
não para que seja notado,
mas para que, os que comigo se cruzam,
se (re)vejam
e eu também mais me descubra.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sou predador...

Sou predador,
para que me conquiste,
carecente de confirmação,
mas apenas seduzo.
Basta-me, para que me iluda
que me gostam
e nunca me venha a sentir só.
São intensos os infinitos
que se intersectam neste ego.
Rompo-os, sempre que posso, um pouco mais,
tentando-me a outros limites,
para que me vença no que, me atrai, mas não devo,
sou, mas não consigo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ínfimo dos reinos

Eu homem,
no que me vejo,
cobiço e careço…
E deus de todo este universo
que em mim se perde
sem que o pense,
respeite...
Nunca me saberei
até ao ínfimo dos reinos,
sejam quais os limites.

Serei eu que me conduzo
ou este meu mundo que se leva?

Só...

Só se sente só
quem não consegue sair de si
e constantemente concebe a solidão,
como se existisse.
Pensa-a, demais,
em vez de respirar fundo,
deixar que o mundo lhe entre pelas fossas nasais,
encha os pulmões de bons ares,
e se combine no sangue, o amor,
até que lhe alcance o coração
e de seguida se alastre pelo corpo
até à alma
e por fim se sinta outro(s),
seja tantos,
mesmo sem ninguém por perto,
e amor.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Heresia de Carmen Fossari (Prefácio)

As palavras constroem-se poema, de fina alma, alvas de sentido, intensas por tanto passado, de esperanças, de tanto desejar a poeta, renascer.
O sonho colore constantemente todas as esquinas dos versos e o amor vibra ao ritmo das frases, e a poesia flui como um rio, descomprometido com as margens…
Há um céu, nesta escrita, com nuvens, mesclado por chuvas, desarrumado por ventos, intransponível à contemplação pelo nevoeiro das dúvidas, iluminado por sóis, prateado de luas, fragmentado por ínfimas partículas cósmicas, com pássaros e anjos…, que só como a poeta, Deus o (re)criou, assim.
Há uma Terra fecunda, com muito verde e muito mar, na lembrança intemporal da feliz mensageira, que se cobrindo com as vestes do tempo, navega, apetrechada, com bússolas, astrolábios, cartas, mapas, nos oceanos profundos da humanidade, encarnando, no drama de todos os palcos, o Todo, lutando contra quaisquer Adamastor, nas tempestades dos dias, com palavra afiada, como espada. E a criança, a mulher e a flor habitam-na, e a luz, a manhã, a esperança e o amor nascem-lhe das profundezas, para além dos genes e todos se cruzam nas doces linhas que escreve, com saber, desaguando em tantos depois, nos olhares de quem terá o bom fado de a ler.

Abraços-poema, poeta Carmen!

João Manuel Marques Jacinto
(o menino do Montijo)
Poeta – Lisboa, Portugal

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

El Carmen

Filha és de Clarice
e Quintana
e trajas-te de diva Florianopolis
e nas veias corre-te o sangue das cores de Fossari
e a dramaturgia de Nelson tem também morada em tua alma
e contracenas com as mais belas canções de Vinícios,
como se em palco igualmente pudesses ser a bossa-nova…
E as palavras que te povoam
saem-te, como pássaros de oiro, com asas de céu,
para que se cumpram nas rotas do Atlântico
e sejam pedras da grande frátria lusófona
e a face Humana do êxtase, esculpidas pela tua poesia.

(poema dedicado à grande poeta brasileira Carmen Fossari, autora de Heresia)

A Poeta da Poesia

A sua poesia tem
alma feminina,
corpo mundo,
o ritmo das ruas apinhadas de esperança,
rios nascidos de um templo sagrado,
a respiração ofegante dos sentimentos,
o amor que muitos anseiam,
o aroma de uma nova era,
e um céu bordado de estrelas...
E é demasiado iluminada,
para ser mortal
por ser um dom
de tão bendita Alma-Poeta.

Guardo-a religiosamente,
na minha essência
e declamo-a como mantra,
para que nunca me perca.



(poema dedicado à grande poeta brasileira Carmen Regina Dias)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Em vésperas de Natal

Foram muitos,
também crianças,
os que partiram de comboio,
naquele rigoroso inverno,
em vésperas de Natal,
com uma estrela cosida na roupa,
em direção, não ao Pólo Norte,
onde reside São Nicolau,
mas a Auschwitz-Birkenau.

Foram muitos
os que chegaram,
mas alguns não o viveram,
sem entender por quê.

Ainda hoje, me custa crer
que haja viagens com esses destinos,
seja ou não Natal,
que tenha acontecido ontem
e tudo já esteja imemorial.


João Marques Jacinto









sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os destinos do Homem e D`Eus

Um dos arquétipos que nos habita é Jesus
(o do Filho do Pai, e/ou o Grande Pai).
Desde sempre, fomos chamados a sê-Lo nas boas acções
e reprimidos quando ousámos imitá-Lo
na autoridade com que enfrentou
a Lei dos homens
e os servos do(s) Templo(s).

Tudo o que fez
foi por AMOR,
por nós.

Haja fratria capaz de se (re)fundar,
de instaurar o regime jesusista,
e espalhá-lo segundo a palavra do Mestre,
para que renasça a Igreja da Humanidade
e se cumpram os destinos do Homem e de D’Eus.












Revelação

Paro.
Paro e escuto-me atentamente.
Traduzo por palavras o que, em mim, estava adormecido
desde as profundezas dos tempos.
Por entre tantos afazeres que me justificassem,
confundia-me —
julgava perdido tudo o que sinto.

Declamo em voz alta
os versos que me nascem do infinito,
para que me ouça, convicto,
e saiba, definitivamente, quem sou.

Procuro, com justeza,
vestir este caminho
que sai, tão lentamente, do nevoeiro
e me estava desenhado há muito.

Assim entendo melhor
o sentido da existência
e percorro-o, coerentemente,
com firmeza,
a cada passada pelas conquistas.

Ao lado, também, de quem ainda precisa
que lhe deem as mãos
e não teve coragem de parar,
de se ouvir com atenção,
nem de se perdoar.

Paro,
para que me chegue o tempo da revelação.

Paro,
e acredito-me,
para que me cumpra no fado, 
que, afinal, não é só meu ,
para que também seja,
e por bem,
de todos.








Suspiros

Tudo está em mim.
E assim, sou reflexo do céu.
E o espelho deve estar em consonância com a imagem.
E por cada suspiro que dou,
há uma estrela que aumenta a intensidade de seu brilho.
E mesmo que queira,
nem sempre há brilho suficiente, numa qualquer estrela,
que me leve a ter uma respiração anelante.
E nem sempre nos meus suspiros
há verdade capaz de provocar movimento
seja ao que for.

E continuo observando o céu, em mim,
e o firmamento onde me perco,
à espera de qualquer entendimento
que justifique este sincronismo,
para além desta realidade.

Berço de poesia

É por entre estas paredes
onde escrevo o que me digo,
que habito nas horas mortas
e me refugio em silêncio,
das exigentes rotinas de vencedores,
das expectativas a viris respostas,
do confronto em esforço com a dúvida,
da carência de quem mal se conhece...
Fecho-me neste berço de poesia,
onde atentamente tudo em mim observo,
rendido ao incentivo da procura,
na solidão que me conforta ao (re)encontro
do que fui, desde sempre,
e não me lembro,
até onde, por fim me completarei,
mesmo que esteja, longe desse entendimento,
em misterioso labirinto.
Estimulado, pelo desejo de liberdade,
a vencer-me no preconceito,
a lutar contra todos os medos do medo,
e a provocar a escrita ao movimento,
e a protegê-la de maus olhares...
Para que em brincadeiras de palavras
me construa à vontade, nos degraus
do que me eleva,
e provoca emoções
e me dá sentido...
E haja quem me queira
tão somente
pelas palavras,
e se sirva de minhas palavras,
se delas souberem mais de si
e de como brincar,
assim comigo,
para que se seja poesia,
para além de qualquer palavra,
e mais do que poeta.

Mesmo como poeta

Tudo é um mistério,
até ao que me proponho,
sem nunca perceber bem a razão
do que ao certo me motiva
e me impulsiona
a esta constante procura
e mutação.
Os versos são como rios
difíceis de trancar
dentro da nascente,
de todas as recordações.
E pesado é o mundo
que carrego,
sem nunca entender,
se é mal
ou bênção.

Mas, valha-me o amor,
por que só nele
me acredito
e conduzo,
mesmo como poeta,
esperando que a vida se escreva
mesmo de poucos cantos,
mas belíssimos,
em poesia.

Não poderemos morrer

Como pode o mal (ou o bem) de alguns
prejudicar muitos,
e haver tanto fanatismo
e solidariedade
por quem tão orgulhosamente
corrói
e tanto desprezo tem
por quem sem defesas sofre
e tristemente se perde?

Onde mora o homem de género;
capaz, de fazer nascer o futuro
e do amor que justifique sua grandeza?

Entre tanta pobreza
haverá quem, certamente,
esteja bem acordado
e pleno de sabedoria,
pronto para marchar
e a emergir do silêncio...

Não poderemos morrer
de inércia,
esvaídos de memórias.

Não poderemos morrer.

Oração do Lavrador (uma prece do labor e da terra)


Trabalho com deleite
esta terra que me sustenta.
Semeio com cuidado e critério
cada grão de vida,
que há de tornar-se verde exuberância,
como é desejado.

Sobrepor-se-á,
pelo caminho da luz,
ao castanho que me dá chão,
que sinto sob os pés,
que cheiro ao lavrar,
que me sustém e me prende
quando me evado de mim.

Faço, humildemente,
da minha pequena horta
o orgulho do mundo,
para que o sacrifício da morte
dê ao meu laborum
um sentido maior,
e me redima da culpa,
do poder
e de outras anomalias.









Solidão

Sentir-me aqui,
nos confins do universo,
limitado a este pequeno mundo,
onde nem tudo
o que conheço desgosto,
e o que me é esquisito, atrai,
à espera que me descubram,
e me salvem,
sem certezas de futuro
e de haver alguma ponte,
dá-me angústia,
aumenta-me a solidão.

Crio esperanças,
invento crenças
e imagino-me como eleito,
e assim me compenso da pequenez
e ao medo do fim.

Não Te entendo,
e nada sei de Ti
mas muito provavelmente
sabes que existo.
E assim jogamos;
perdendo-Te sempre,
talvez para que, um dia,
Te aprenda...

Um

Estou cansado de ser só um.
Quero ser mais do que um,
quero ser mais de um.
Quero ser mais um,
mas, no fim,
quero ser apenas um,
para descansar.


João Marques Jacinto











Início

Início
é referência,
caminho
é união,
fim
é propósito
e (re)início.
E inteligência
é tudo.

Outra vida

Dei-me outra vida,
rendido aos braços da noite,
onde o que foi sonho
me ardeu como eternidade.

E despertei,
mas ali mesmo morri,
para que esta vida,
aqui e agora,
se erguesse
sobre outros sonhos,
que às vezes
nem tocam o real.

Teimo em querer-me sonho,
sem antes
me acreditar,
sem antes
me sonhar inteiro.





Não sei o hoje

Não sei o hoje. Ainda agora nasceu.
Mas tão longe irão as horas,
depois de o dia subir tão alto,
que, ao cair da tarde, será já tão tarde,
até que acabe a tristeza,
depois de se pôr o passado,
e reste uma noite curta
entre o longo hoje
e o possível amanhã.

Não sei o hoje, temo o que ainda não sei,
mas creio no (re)início.










Caminho

A vida corre
depressa demais,
para que não só faça
o que me dá prazer,
mas também o que me é devido.

Nem sempre
entendo
este caminho
de ser,
a não ser
quando o sou,
caminhando-o.
























O sonho

O sonho
é maior que eu,
para que me imponha
a não vivê-lo.
Mesmo que me (des)iluda,
não me resignarei
à força da gravidade,
à cristalização...

O sonho
leva-me ao melhor de mim.

Sem me mentir

Perdi já tempo
a querer mostrar
o que não sou,
quando valho mais
do que pareço
e esperam de mim.

Esta coisa
do invólucro
só deverá reflectir
a totalidade
da essência,
sem fazer batota,
me mentir.

Veneno

Cura-se veneno
com veneno.
Para veneno, veneno e meio
(em pequenas doses, não sendo adepto desta mesinha).

Quanto mais se envenena,
mais se contamina,
até se morrer de infelicidade,
e só.

O silêncio é o antídoto
que melhor neutraliza o veneno da culpa.
Estou imune ao desamor e à pobreza.
Espero às portas da vingança,
para perdoar.









Fujo

Fujo,
não para esquecer,
mas para alcançar
liberdade.
Solto os animais
que me habitam
e apodera-se-me
outra coragem,
e luto com a sombra,
para desventrar,
no mais profundo dos mistérios
da existência,
as entranhas do infinito,
até à soberana consciência
do todo, em mim.

Fujo,
por que (pres)sinto,
o inimaginável,
sem o conseguir decifrar.
E lucidamente
confundo-me
com a loucura
e a insatisfação.

É difícil
crer
e ser terreno,
ser deus
e também carne,
amar
e sobreviver.

Fujo,
com esperança,
que algum dia
me encontre.

Estes

Estes,
que outrora foram os revoltosos,
são agora os resignados,
vendidos ao poder,
limitados pelo que usufruem,
presos nas teias
que entre si teceram,
esquecidos dos ideais ...
Esperando que outros surjam
por entre seus pesadelos,
e se aproveitem de suas fraquezas,
e façam, agora a mudança,
convencidos de verdades,
lúcidos de sua classe,
conscientes da grandeza do todo...
E os soltem , sem quererem,
de seus fantasmas
e de malévolas ambições.

E livres estarão
de nunca apenas,
se pertencerem
e de que não lhes roubem
o amor.

Dois senhores

Aquele que reconhece,
com fanatismo
quem faustosamente
diz ser representante
de Cristo na Terra,
nada sabe de Jesus,
não é um bom cristão,
nem um bom homem.

Neste circo da existência;
somos amestrados
pelas armas do medo,
submissos à sombra,
presos à insignificância,
incapazes de transcender as crenças
e de tocar com liberdade
o divino.

Não se pode servir
a dois senhores...

Aprenderei

Aprenderei
o necessário,
para que me entendam
em todos os lugares
e assim também possa
decifrar o sentido
de todas as palavras
que me sejam declaradas
com amor,
e que advenham de Ti.

Mas Contigo
falarei apenas,
na língua de minha alma,
para que me ouça
e Te (pres)sinta
daqui, onde (re)nasci
e me (re)fiz,
em português,
até ao infinito
de todos nós,
sem que, o tempo
nos conte
e a noite
nos caia,
mesmo que sejam
breves as emoções.

Vinga o animal

Muito do que escrevo
não passa de lamechices de um homem simples
que teima em chamar por Ele,
indignado com tanta (in)justiça,
incluindo a do Arquitecto.
Como puderam os homens inventar a culpa
sobre uma única mulher
(e marginalizarem as restantes)
e fazerem d`Ele seus cúmplice?
E persiste a inverdade das minorias
para garantir o poder sobre os demais.
Mais do que a razão, vinda o animal.

O país da dignidade

Apagam-se memórias,
despreza-se gente,
corrompe-se a esperança,
desertifica-se o hoje,
decreta-se o incumprível,
persiste-se ao caos...

O que dirá de nós
o futuro
e onde será o país
da dignidade,
para quem ainda crê
ser também Portugal?

Ai, os ventos
que tardam
e as mordaças
que calam o grito
da vondade
plural!

Se acordarmos tarde,
tarde será,
para que o dia
seja pleno de (r)evolução,
nasça o Sol em cada um
e haja outro amanhã!

Fujo

Fujo
para pôr fim,
parar,
senão enlouqueço;
é um desmaio.
A terra
e a solidão
fazem-me crescer.
Medito
para não pensar,
(re)educo o crer
e procuro-me
no caminho
e no amor.

Aqui, nasci,
aqui, aguardo
a morte
ou um (re)começo.
Aqui, sou mais eu,
desprendido
de vícios
e de olhares
que me ceguem.
Aqui sou mais de outros
mesmo por (re)conhecer.
E aguardo na serenidade
de minha madrugada
um outro amanhã,
onde vingue o meu sol.

O Homem

O Homem
já não tem idade
para tanta irresponsabilidade,
se prender a instintivas tradições,
se refugiar em utópicos mitos,
inventar crenças
que lhe sirvam de escudo,
e lhe dêem poder...
Como se a inteligência da natureza
fosse estática
e ele a obra prima
do Criador.
A caverna
não é mais seu habitat.

E somente
o universo persiste
como tecto,
sabedoria
e futuro,
espelhado no infinito
de sua alma.

Predador

Sinto, ainda o medo
de teus silenciosos
e repetidos passos,
na invasão premeditada
do intimo mais sagrado,
sobre as perdas de uns
para teu usufruto,
num inesquecível outono.
Nas pisadas deixadas
de teus contraditórios actos,
na eloquência de teu desespero,
na incongruência de tuas (in)verdades,
na ansiedade de justificação,
na vítima que se inventa à pena,
na culpa que promete pesar,
não dar descanso...

Finges-te esquecido
do que tudo sei,
incutes confusão no óbvio
e mascaras-te de virgem,
como se nunca tivesse já acontecido
uma outra primeira vez.

És artista da vida,
perdido no papel que te cabe,
representando ao espelho,
temendo o palco da consciência,
sem compaixão alguma
pelo drama dos que te restam
e ainda te amam.

Reinas no mundo da ignorância,
como um louco,
sonhando com um tesouro,
que te compense a pobreza.

Depois de ruir a casa,
aconselho-te pela última vez,
que te lances ao mar
das cristalinas emoções
e aprendas a nadar
como mais um peixe
que cresce na igualdade,
de Aquário,
até que encontres
o sol da tua paz.

Não pertence o perdão
ao predador
e jamais te acharás, aqui.

Guerreio-me

Sinto-me dividido
entre Animal
e Deus.
Ainda, acredito
no Homem
e no Ideal
por desvendar.

Guerreio-me
na solidão
para nunca ser só.

Elevar

Servi-me de ti,
para exorcizar
os meus instintos,
confrontar
os meus fantasmas
mais recônditos...
E tu de mim,
para exercitares
o poder do velho ego,
que te compensasse
da complexidade, desde agora...
E não nos conseguimos
elevar no sentimento
que nos unisse
ao futuro dos afectos,
ao amor...

Quando dou,
já recebo!

Sonho

Sonho
com alguém
que veja melhor
do que eu,
para que me indique
o meu caminho,
e possa, assim,
ver a luz de mim,
e saiba feliz,
agradecer
e retribuir,
dando-me
no que sou,
possuo,
penso
e sinto.

Sonho
com a evolução.
Renego
o que já de mim
morreu.

Não sei no que acredito

Não sei no que acredito.
Procuro-me
no que dificilmente
alguma vez encontrarei...
Mas não me consigo deixar possuir
pelo vazio do silêncio;
com as dores da estagnação
e morrer sem permitir ao pensamento
que voe para onde me queira levar.
Por que um céu assim
tem um azul mais azul
e as searas são mesmo de oiro,
quando só ele sem receios,
me dá a liberdade
por entre eles flutuar.
E os homens são mais autênticos
sem o saberem,
quando se confundem
com toda a natureza
e tudo é mais parecido
com o que acredito
na minha permanente busca
à revelação.
E sinto-me insignificante
ao todo do saber
sem compreender os limites
e o tempo
que estão para além de mim,
neste agora, que constantemente me morre,
até quando tudo permitir.

Não sei no que acredito,
mas há uma voz em mim
que clama por Ele,
mesmo que O negue.

Nunca me aceitarei

Nunca me aceitarei
no que me prende à Terra,
quando me convenceram
da perfeição ao céu.
Não foi, quem dizem,
quem nos criou.
Só assim, poderei
compreender a natureza,
aceitar o divino
e viver sem temor
e culpa.

Mas continuarei
a achar-me ridículo,
com as coisas
que visto
e inúteis
com que convivo
e diariamente
me prendem
me empobrecem.

Os cravos estão mortos

Como é possível,
os homens e as mulheres,
que fizeram eclodir a primavera,
depois de tanto sofrerem
soterrados num longo
e terrífico inverno,
permitirem que um outono
cinzento-provações,
lhes cubra as cabeças,
ameaçando o futuro da esperança
por que lutaram,
sem que nada incomode a lembrança,
como se agora, seu sofrer
fosse de cegueira
ou a demência?

Os cravos murcharam,
estão mortos!

O meu relógio

É sobre o céu de outros
que trabalho o meu.
E faço das palavras
a poesia de cada um,
e também um de meus melhores,
de muitos, rios,
de mim nascidos,
que em mim desaguam;
o da procura,
ao oceano do sem fim.

O meu relógio
tem pelo menos,
dez ponteiros;
para que assim entenda
o tempo
e a vida...

O meu relógio
pulsa
como um grande coração!

Solidão

Amei-me em ti
sem o saber,
tão grave era esse tempo
onde o amor se confundia
com ausência de mim.

Deixei que me habitasses
sem ver os teus passos,
subtis,
desenhando-me por dentro,
nas dobras mais íntimas do sonho.

Sentia-te minha,
na verdade que me implorava,
no prazer partilhado,
no amparo como promessa
escrita a duas mãos.

E achava-te bela,
pura,
como um pequeno lírio oculto
num campo de verdes sem fim.

E eu,
quando podia,
erguia-te contra o vento,
guardava-te da chuva,
acariciava-te
como o sol acaricia
a pele inaugural da terra.

Tu dizias-te perdida,
e chamavas por mim
como ave ainda ninho,
pedindo ao regresso
o alimento do reencontro.

Recriavas-me na importância
que sonhavas eu ter,
e não respiravas
sem que te pensasse,
nem me vias
sem que te pressentisse.

E eu,
não te sabia.
Perdia-me no medo
que me moldaste com arte severa.

Tudo parecia correr
como num voto antigo,
sem tempo
senão para escutar-me em ti,
tomar-te por culpa,
e sustentar-te aos ombros
quando recusavas o chão,
frágil como criança
diante de um pai ausente.

Compreendia-te,
nas noites longas,
onde o sono era exílio
e só querias falar
de como te criaste,
não entre fadas,
mas entre sombras que te seguiam
desde o berço.

Falas-me dos animais
que tombaram nos teus bosques,
das vitórias em noites
de luas sem perdão,
não por querer,
mas como anjo submisso
a rituais de dor
dictados por um deus ausente.

Contaste-me as almas
que levaste ao inferno,
como se fosse missão santa
a fidelidade à ferida.

E disseste-me
da tua sobrevivência —
de como te vestias de força
para esconder
a fragilidade acesa
na tua sensibilidade exposta.

Sempre que te olhava,
eras luz sem mácula...
e eu desejava prolongar
esse encantamento,
convencido de que a felicidade
viria,
se não aqui,
noutro lugar
onde também estivesses,
ainda que nunca te tivesse amado.

Preferia-me assim:
só,
triste,
entregue ao desejo
que te coroava,
como se eu fosse rei
e homem.

Mas quando te quis,
não te encontrei.
Nunca foste.

E quando acordei,
eras tão pouca,
tão menor,
tão rude,
tão desfeita como o diabo.

Não há saber,
nem clemência,
nem alquimia alguma
que te restitua à vida.

Nem amor,
nem perdão
te redimem.

Desfazes-te,
lentamente,
em tudo o que tocas.

Corrói-te o azedume
de não cortares
o cordão vil
que te liga
ao ventre da que te pariu,
sem jamais confessar
com quem dormiu
para que nasceste.

És, sim,
a própria Solidão.
E ela.












Eutanásia

Perdi o jeito para viver, assim.
Já não sei.
Não me apetece mais.
Tenho o direito de nos querer felizes
e o dever de ser autêntico.
Tudo é-me banal
e feio,
e mau...
Nem o amor já me surpreende,
nem eu...

Abreviarei a vida,
sem dor,
nem sofrimento,
ao incurável ontem,
ao instável e ansioso amanhã,
para que seja o agora,
num espaço para todos, habitável,
em cada um de nós,
por nós,
vivo!

Juízos

Ontem, olhaste-me fixamente.
E mostraste-te, como sempre,
de modo a que te apreciem
e te valorizem,
como único, o melhor
e jamais te rejeitem...
Por detrás do teu sorriso,
havia um dissimulado desdém,
e de mim, os juízos,
que te tranquilizassem.
E deixei que representasses
sem te saberes tão mau actor,
para que aliviasses o sofrimento
de teus complexos,
e por o imaginar medonho.

Como podes ainda estar tão longe
de seres tu,
valorizando-me de mais,
no que tanto desprezas
por tudo o que em ti temes?

Que idade terá Deus

Quando Deus criou o Homem,
tê-lo-á feito à Sua imagem.

Ou terão alguns homens
inventado Deus
(O que nos criou e nos castiga),
para que se sentissem Ele
e assim reinassem,
sobre os puros,
os carentes de acreditar,
os que O procuram,
os desejosos de salvação,
os perdidos,
os indesejáveis,
os desordeiros,
os aflitos,
outros poderosos?...

Na história do Homem,
este Deus nasce bem mais tarde,
do que Ele.

Que idade terá, então, Deus?